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O que os olhos não veem, o meio ambiente sente

Cientistas descobrem que micropartículas são tão prejudiciais ao meio ambiente quanto o excesso de plástico disposto.

O mundo finalmente abriu os olhos para a poluição plástica que assola os oceanos por todo o mundo. Não à toa, em 2018 a questão entrou no radar da ONU como um dos maiores problemas para o meio ambiente e que deve ser acompanhado bem de perto, afinal, cerca de 90% de todo o lixo flutuando nos oceanos é plástico e, se as coisas continuarem assim, é previsto que até 2050 exista mais plástico do que peixes nos oceanos.

Apesar de ser um problema real, nem só de plástico se constitui a poluição marinha. Existe outro tipo de poluição dos oceanos que nós não estamos vendo. E nós não estamos literalmente sendo capazes de enxergar! Especialistas apontam que a poluição invisível é uma ameaça tão grande aos oceanos, quanto o plástico.

Mas o que é a “Poluição Invisível” dos oceanos?

É muito fácil identificarmos que um mar está poluído quando apresenta uma coloração escura, espuma ou mal cheiro, mas quando se trata de poluentes invisíveis, não é possível identificarmos a olho nu.

Você já parou para pensar para onde vai os restos de produtos de higiene, como pasta de dente, cremes (principalmente os esfoliantes) e sabonetes? Ou até mesmo resíduos dos medicamentos que ingerimos e eliminamos pela urina ou pelas fezes? Se não parou, é melhor refletir. Todas essas substâncias têm como destino final os oceanos, por meio dos sistemas de esgotos.

Os PPCP (Pharmaceuticals and Personal Care Pollutants), ou em português “poluentes derivados de fármacos e cosméticos”, são uma série de derivados de produtos como cremes para o corpo, pastas dentais, remédios, protetores solares, anticoncepcionais, desinfetantes, conservantes alimentares e toda uma gama de produtos industrializados. Essas micropartículas, uma vez no oceano, se fragmentam e podem levar centenas de anos para se degradar.

Para você que possa estar imaginando que mal pode fazer essas partículas microscópicas, a resposta é temível. Para ser sincero, os cientistas ainda não mensuraram todos os malefícios dessas substâncias, mas indica-se que podem interferir no funcionamento hormonal, neurológico, imunológico e reprodutivo.

Anomalias sexuais em animais marinhos

Um exemplo disso é que em muitos rios de países desenvolvidos foram registradas anomalias sexuais em peixes e crustáceos, associadas a mudança de sexo de algumas espécies desses animais. Isso implica em sérios riscos à  reprodução marinha. Outro exemplo de como esses poluentes interferem na vida é o caso dos antibióticos. Esses, em ação na natureza, podem favorecer o desenvolvimento de linhagens de bactérias particularmente perigosas e resistentes.

Cocaína na Baía de Santos

Cientistas europeus ainda apontam que é comum encontrar traços de drogas ilícitas ao redor de grandes metrópoles, como maconha e cocaína. Uma pesquisa realizada em Santos, litoral de São Paulo, publicada pela revista norte-americana Science of The Total Environment, demostrou diversas substâncias derivadas de medicamentos e de cocaína nas águas da Baía de Santos. Além de ser um indicio do alto consumo exagerado e do descarte irregular de drogas licitas e ilícitas pela população local, também demonstra que essas substâncias invisíveis não são eliminadas no tratamento do esgoto doméstico.

A pesquisadora portuguesa Maria João Bebiano, coordenadora do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve, considera como prioridade o tratamento destes efluentes, só que afirma que ainda não existe tecnologia para isso. “É necessário encontrar uma solução, porque muitos dos compostos que usamos todos os dias passam nas estações de tratamento, como por exemplo os fármacos, os detergentes, os produtos de higiene pessoal”, comentou a revista portuguesa Renascença. “Nada disto é retido nos efluentes, o que depois tem um impacto negativo nos organismos vivos, levando a uma diminuição da produtividade do oceano.”

A Suécia irá atuar como o país precursor a destinar uma primeira experiência de uma estação de tratamento capaz de filtrar compostos microscópicos. Se obter sucesso, pode dar início uma mudança radical no tratamento de tais substâncias.

Não existe no Brasil nenhum tipo de regulamentação do Ministério da Saúde que determine as concentrações máximas permitidas para despejo nos mares dessas substâncias. Se as autoridades de todo mundo não enxergarem (sem trocadilhos) agora que precisamos de politicas mais sólidas de proteção aos nossos mares, talvez amanhã seja tarde demais….

Fonte: Docol – Planeta Água, Revista Renascença, Jornal Brasil 247, Jornal da USP, ONU BR, A Tribuna Jornal

 

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