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Morada da Floresta aposta em cidades mais conscientes

Dizem que sonhar sozinho não leva a lugar algum. Cláudio Spínola viveu muito tempo sem ter com quem compartilhar suas ideias. Em 1998, enquanto cursava Belas Artes pela USP, conheceu a Permacultura, um conceito nascido na Austrália que prega a sustentabilidade em todas as esferas da vida social, onde cada um tem seu papel de protagonista na gestão dos resíduos humanos. Seu compromisso com a causa só aumentou quando conheceu Ana Paula Silva, com quem divide alianças e a sociedade da Morada da Floresta, fundada oficialmente em 2009, que completa exatos oito anos nesta segunda-feira (3).

O Morada cresceu muito nesse período e, hoje, conta com uma equipe de 15 colaboradores, todos em São Paulo (SP). Cláudio foi o responsável pelo projeto   “Composta SP”, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, que levou duas mil composteiras/minhocários a domicílios da capital. Atualmente, a empresa atua com dois focos: produtos, com composteiras para pessoas físicas e jurídicas, fraldas ecológicas e absorventes íntimos sustentáveis; e projetos dirigidos à educação ambiental e à multiplicação de iniciativas como as compostagens para administrações públicas, escolas e domicílios.

Nesta segunda-feira (3), além de comemorar o 8º aniversário, a Morada lança a Humi – modelo de composteira mais adaptável à vida urbana. Batemos um papo com o idealizador Cláudio Spínola, que você lê a seguir.

 

A Humi será uma vermicomposteira mais prática e adequada à vida da maioria das pessoas, com foco em famílias de até oito pessoas. O que diferencia esse modelo das composteiras usadas no “Composta SP”?

A Humi resolve todas as limitações do modelo antigo. Em termos de usabilidade, priorizamos conforto para facilitar o manejo. Os itens são lisos por fora, o que ajuda na limpeza. O fundo da caixa digestora tem um pezinho – logo, não encosta no chão. A tampa tem duas garras para facilitar o depósito de resíduos orgânicos. De um modo geral, esse lançamento oferece mais praticidade, sendo mais agradável e adaptável ao modelo urbano.

O design é melhorado. O objetivo é democratizar. Nossa ideia é que a Humi vire um equipamento doméstico como a máquina de lavar. O fundo que armazena o líquido decorrente da fermentação é inclinado, direcionando 100% dessa água para a torneira. Tudo é mais prático. A logística também facilita: uma caixa fica dentro da outra, otimizando transporte e estocagem.

 

Em abril, a Humi foi apresentada para membros do Programa Zero Waste, da Prefeitura de San Francisco. Como foi?

Foi muito positivo porque São Francisco é bem avançada. A cidade iniciou ações de compostagem doméstica há 20 anos. Tivemos uma boa conversa. Como não estávamos com o produto em mãos, ficamos de avançar com mais iniciativas no futuro. Estamos com um projeto para modelos direcionados a escolas brasileiras e também para exportação. Nesse segundo tópico, vale mencionar que fomos selecionados em um programa da FGV, que visa preparar pequenas e médias empresas brasileiras para exportação. Dos 150 cadastrados, ficamos entre 30 escolhidos. Estamos com contato na Argentina, Estados Unidos e Portugal.

 

Como você vê a trajetória da Morada nesses oito anos e seu comprometimento com a causa sustentável antes do projeto?

Conheci a Permacultura em 1998. A Morada foi pioneira ao trazer esse conceito para o ambiente urbano. Trouxemos esse pensamento para a cidade, pode-se dizer assim. No final dos anos 1990, adotei essas práticas, mas como minha casa era alugada, passei a ter costumes simples, como plantio, compostagem e consumo consciente. Em 2004, comprei o imóvel e comecei a mexer na estrutura – coletando, filtrando e utilizando água da chuva e optando por um modelo mais complexo. Até então, não havia direcionamento comercial. Em 2007, conheci as “minhocas” [composteiras com minhocas, que ajudam na conversão de resíduos em adubo]. Já ouvia falar, mas não conhecia o sistema de perto. Fiquei encantado com os resultados e com a possibilidade de criá-las em caixas. Em 2007, passamos a dar cursos, mas o público queria adquirir o sistema pronto. Foi um caminho natural. Em 2009, abrimos a empresa devido a uma demanda específica. Sempre tive essa necessidade de compartilhar essa realidade com outras pessoas. O que me move é promover impactos e facilitar acessos.

 

O Composta SP se destacou por enviar composteiras gratuitamente para dois mil domicílios, além de ter contado com dez mil inscritos [saiba mais aqui]. Há previsão de ter uma segunda edição? 

A gestão anterior não renovou por questões orçamentárias. Estamos em contato com a atual administração. Iniciamos nossas conversas com o poder público sobre esse tema em 2011. Temos empregado a lógica da Permacultura a fim de usar menos energia nos processos. Em 2013, aprovou-se a “Meta 92” que previa a compostagem de todas as feiras. Quando foi aceito, para nós, foi uma grande conquista. Em maio de 2014, o “Composta SP” foi para as ruas. O escopo era entregar duas mil composteiras e fazer pesquisa com essas famílias [os resultados dessa pesquisa podem ser conferidosaqui].   Na semana passada, uma aluna de Gestão Pública da FGV apresentou seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em que, entre vários objetivos, tentou entender por que não houve renovação. Estamos evoluindo conversas com outras prefeituras, relativas a diversas iniciativas. A Humi é também uma ferramenta para dar esses passos de expansão.

 

Como funcionam as visitas ecopedagógicas, que a Morada faz?

Temos vários programas para escolas, como minhocários educativos, compostagens, iniciativas de apoio para as famílias, implementação de hortas, sessões para receber crianças na Morada – uma casa “viva” com agricultura, abelhas sem ferrão, coleta de água da chuva e uso de energia solar para aquecer água -, entre outros. Abrimos para estudantes do Fundamental ao Superior. Também temos um grupo de educadores ambientais habilitados para ir a escolas e a eventos (públicos e privados).

 

Como funciona o projeto Escolas Mais Orgânicas?

É uma iniciativa da CCAC (Climate & Clean Air Coalition) – um braço da ONU, focado em reduzir os impactos da mudança climática. Havia um projeto voltado aos resíduos orgânicos, que também incluía prefeituras. Em parceria com a ISWA e com a Abrelpe, resolveram fazer algo focado nas escolas, desenvolvendo uma plataforma online, abordando a compostagem. Devido a nossa expertise, fomos convidados. Trabalhamos com 18 escolas com encontros mensais, incluindo professores e coordenadores. Além disso, fizemos um grupo no Facebook de conversas. Para finalizar, um consultor da ISWA desenvolveu um manual (em português e em inglês) para ajudar escolas a discutirem esse tema. Uma segunda possível etapa se encontra em análise, mas o primeiro estágio foi concluído.

 

A Permacultura funciona melhor em grandes ou pequenas cidades?

Acredito que é possível fazer em cidades como São Paulo, no entanto, é mais fácil aplicar esse conceito em cidades menores. De qualquer modo, o Brasil precisa se preparar para isso. Ao imaginar 10% das famílias paulistanas fazendo compostagem, enxergo essa conquista como uma revolução. Há muito o que ser feito.